Uma Luz na Neblina

Ainda que eu hesite em escrever sobre os eventos daquele dia e da noite anterior, não querendo defini-los, confina-los, reduzi-los a uma interpretação e representação lineares, o processo que em si pode de algum modo revelar a fragilidade e quebrar o encanto – eu não posso NÃO. É que, na verdade, não houve eventos distintos e nomeáveis que ocorreram naquele meio-dia que se tornou tarde que se tornou noite, apenas uma grande experiência coesa, com a passagem do sol e a chegada do frio úmido, os quais fizeram parte integrante da história como os atores o fazem em uma peça. O palco improvisado, a Casa das Letras, transformou-se em sincronicidade a esses elementos, enquanto os atores, eles próprios pintores, poetas, fotógrafos, escritores, e atores de fato na vida, iam e vinham, em fluxo e refluxo a medida que agrupamentos se formavam e se dissipavam em seu próprio ritmo/por conta própria, criando várias cenas dentro da cena, escrevendo histórias individuais com seus próprios personagens e tramas, cronologias e morais; fios entrelaçados e atados na tapeçaria contexto do momento presente.

Foi no calor e claridade do meio-dia que as sementes de conversas se enraizaram e cresceram seus muitos ramos. Mais tarde, enquanto o sol dava lugar às nuvens, o sereno que havia descido sobre nós acrescentou um peso palpável às nossas palavras, palavras que aderiram à nossa pele e que, como a própria garoa respingada, acabariam integrando-se em gotículas de consciência que molhavam nossas almas.  Ainda mais tarde, espantando a umidade da noite, um pequeno fogo foi aceso na lareira de pedra, projetando um brilho âmbar, um fogo de iniciação e ideia, de ambição e criatividade, um fogo de conexão mental, emocional, física e espiritual, ligado às gavinhas, de fumaça e neblina, que desceram da montanha para nos abrigar.  Na realidade, não posso dizer com certeza que o nevoeiro não nos tenha engolido por completo naquela noite, encasulando-nos de outros fogos, aqueles fogos destrutivos que ardiam além das nossas paredes. Tornamo-nos um útero no nevoeiro, protegidos por ele enquanto as horas passavam sem que reparássemos ou nos importássemos. Uma magia vertia de dentro das paredes de lambri do útero, alta e onisciente, rápida ainda que silenciosa a vaguear pela sala, intangível como as sombras das velas trêmulas pelo vento.

Uma Luz na neblina

No fim, o nevoeiro soltou o abraço e, um por um, os atores esvaziaram o palco e seguiram seus rumos, incapazes de lembrar ao certo se qualquer daquelas coisas havia acontecido. Mas tinham certeza, nós tínhamos certeza, de uma realidade. A de que o que encontramos no dia que virou noite, naquelas horas oníricas enevoadas de fumaça e nevoeiro e fogo, não eram exatamente os outros, mas partes de nós mesmos, partes que um dia foram espalhadas e agora eram reunidas, partes frágeis, pedaços solitários, reunidos pela força da vontade de ser um novamente.

por Jason Weaver
Tradução por Nora Vicente
Imagem por Marc Claussen

2014